Todo dashboard começa em um banco de dados. Antes de qualquer gráfico no Power BI, antes de qualquer pipeline no Microsoft Fabric, existe um sistema que registra pedidos, pagamentos, estoques, contratos, atendimentos e milhões de outros eventos do dia a dia de uma empresa. No ecossistema Microsoft, esse sistema muito frequentemente é o SQL Server.

Lançado no final da década de 1980, o SQL Server atravessou mais de três décadas de mudanças tecnológicas e continua sendo um dos bancos de dados relacionais mais utilizados do mundo. Está por trás de ERPs, sistemas financeiros, plataformas de e-commerce, aplicações corporativas e Data Warehouses em empresas de todos os portes. 

Em novembro de 2025, a Microsoft lançou o SQL Server 2025, apresentado como um banco de dados pronto para IA, com tipo de dado vetorial, busca por similaridade, integração nativa com modelos de linguagem e espelhamento de dados para o Microsoft Fabric. Ao mesmo tempo, a empresa consolidou a estratégia que chama de “One Consistent SQL”: o mesmo mecanismo de banco de dados disponível on-premises (SQL Server), na nuvem (Azure SQL) e dentro do Fabric (SQL database in Fabric).

Um Banco de Dados Utilizado em Escala Global

Medir a popularidade de um banco de dados não é trivial, mas diferentes fontes apontam na mesma direção.

No ranking DB-Engines, que combina sinais como buscas, vagas, discussões técnicas e menções em redes profissionais, o SQL Server figura há anos entre os quatro sistemas mais populares do mundo, ao lado de Oracle, MySQL e PostgreSQL. Uma análise publicada em 2026 pela Redgate observa que essa ordem de liderança permanece estável há pelo menos 12 meses.

Na pesquisa anual do Stack Overflow de 2025, respondida por dezenas de milhares de desenvolvedores, 30,1% dos participantes afirmaram trabalhar com Microsoft SQL Server, o que o coloca como o quarto banco de dados mais utilizado, atrás apenas de PostgreSQL, MySQL e SQLite. Entre desenvolvedores profissionais, o percentual sobe para 30,9%.

Bases de inteligência tecnológica reforçam a escala: a TheirStack, por exemplo, identifica dezenas de milhares de empresas no mundo utilizando Microsoft SQL Server.

Esses números contam apenas parte da história, porque o SQL Server raramente aparece sozinho. Ele é a base de dados de milhares de aplicações corporativas desenvolvidas em .NET, de sistemas de gestão amplamente utilizados no país e, muito frequentemente, a fonte dos modelos semânticos criados em Power BI.

SQL Server nas Empresas Brasileiras

Não existe um censo oficial sobre quantas empresas brasileiras utilizam SQL Server. As bases tecnográficas ajudam a formar uma referência.

Na consulta realizada para este artigo, em Agosto de 2026, a TheirStack identificava 334 empresas brasileiras associadas ao Microsoft SQL Server, entre elas Act Digital, Omie, Minerva Foods, Firjan e RedeFlex, e outras 160 registradas sob a etiqueta MSSQL, como Agibank, Quatá Alimentos, Grupo Breitkopf e Kenlo. Os setores incluem serviços de TI, software, bancos, serviços financeiros, indústria de alimentos, varejo e construção, com organizações de algumas dezenas até mais de 13 mil funcionários.

Como nos artigos anteriores desta série, o dado precisa ser interpretado com cautela. Plataformas desse tipo detectam tecnologias a partir de sinais públicos, como vagas e páginas corporativas, e bancos de dados são tecnologias de infraestrutura, muito menos visíveis externamente do que uma ferramenta de visualização. O número real é certamente muito maior. A melhor evidência disso está nas vagas de emprego e nos casos publicados pela própria Microsoft, que veremos a seguir.

SQL Server e Empregabilidade

Em consulta pública realizada em Agosto de 2026, a busca pela expressão SQL Server retornava 973 vagas no Glassdoor e 977 vagas no Indeed, ambas para o Brasil. No LinkedIn, apenas a combinação SQL Server DBA apresentava centenas de oportunidades.

Como qualquer mecanismo de busca de empregos, esses números variam continuamente e incluem vagas nas quais SQL Server aparece como uma entre várias competências. Mas é justamente isso que torna o dado interessante.

Observe os títulos das vagas encontradas: Desenvolvedor SQL Server Júnior, Analista de SQL Server Pleno, Analista DBA (Oracle e SQL Server) com foco em Protheus, Analista de BI, Analista de Dados, Analista de Sistemas, Desenvolvedor Fullstack e até Analista Pleno em Power BI. As empresas incluem Confitec, Nestlé, Omie, Firjan, Crefisa, Verisure e Wine.

Isso mostra que SQL Server funciona de duas maneiras no mercado de trabalho.

Ele pode ser a competência central de uma função, como no caso do Administrador de Banco de Dados (DBA), do Desenvolvedor SQL ou do Engenheiro de Banco de Dados, profissionais responsáveis por arquitetura, segurança, performance, disponibilidade e migração dos ambientes.

Mas ele também é uma competência complementar cada vez mais exigida de Analistas de Dados, Analistas de BI, Desenvolvedores de aplicações, Engenheiros de Dados e profissionais de Power BI. Nesses casos, saber escrever consultas eficientes e entender índices, modelagem, views, procedures e permissões faz diferença direta na qualidade e no desempenho das soluções entregues.

Existe ainda um terceiro fator, típico de 2026. O suporte estendido do SQL Server 2016 terminou em julho de 2026 e o do SQL Server 2017 termina em outubro de 2027. Milhares de empresas precisam decidir, nos próximos meses, entre atualizar para o SQL Server 2022 ou 2025, migrar para o Azure SQL ou adotar uma arquitetura híbrida com Azure Arc. Cada uma dessas decisões gera projetos e projetos geram demanda por profissionais capazes de planejá-los e executá-los.

O Que as Empresas Realmente Fazem com SQL Server e Azure SQL?

Os casos brasileiros publicados pela Microsoft mostram o SQL Server em papéis bem diferentes, do sistema transacional à plataforma de dados na nuvem.

A Agger, empresa de software para corretoras de seguros com mais de 6 mil clientes no Brasil, migrou todo o seu ambiente para o Azure em três meses. Seus bancos SQL, cerca de 10 mil ao todo, estão organizados em 25 elastic pools do Azure SQL Database, com aproximadamente 400 bancos em cada um. O Azure faz backup de todos os bancos a cada 10 minutos e retém as cópias por 30 dias. Segundo o relato, a empresa simplesmente não possui mais servidores.

A Fast Shop, rede com mais de 80 lojas físicas, migrou todos os dados e relatórios para o Azure em sete meses, utilizando Azure SQL Database, Data Factory, Databricks, Analysis Services e Power BI. O projeto reduziu pela metade o número de objetos de carga e transformação e eliminou custos de data center e de licenças do fornecedor anterior.

A Néos Previdência Complementar, que administra mais de R$ 3 bilhões, levou seu SQL Server para máquinas virtuais no Azure. O tempo de parada para manutenções caiu em torno de 50%, a infraestrutura passou de dez servidores para três e a economia ficou em torno de 30%.

Na rede Mania de Churrasco!, com mais de 100 lojas e 700 mil transações por mês, a integração entre o sistema de vendas, o autoatendimento e a nuvem foi construída com Azure e SQL Server, e a centralização dos dados gerou uma economia estimada de R$ 3,5 milhões em cinco anos.

Na CASSI, caixa de assistência dos funcionários do Banco do Brasil, o SQL Server armazena os dados históricos de uma solução de IA construída com Azure Databricks e Data Factory que reduziu a análise de autorizações médicas de três dias para segundos, com economia anual estimada em R$ 4 milhões.

No Metrô de São Paulo, que transporta mais de 5 milhões de passageiros por dia, a gestão de dados e analytics migrou para a nuvem com Azure SQL e Data Factory. E a B3 utilizou o Azure SQL Hyperscale como camada de armazenamento da plataforma de dados que reúne informações de cerca de 6 milhões de investidores.

Fora do Brasil, os números são ainda maiores. A Thomson Reuters migrou 18 mil bancos de dados e mais de 500 TB para o Azure SQL Managed Instance. A Temenos, fornecedora de software bancário, processou mais de 17.500 transações por segundo em picos de demanda sobre o Azure SQL Database Hyperscale, que suporta bancos de até 128 TB.

Apesar das diferenças entre esses projetos, todos apontam para a mesma conclusão: o banco de dados não é o destino final do dado. É a fundação sobre a qual BI, Analytics e Inteligência Artificial são construídos, e quem domina essa fundação participa de todas as etapas seguintes.

E o Que Isso Significa Para Quem Quer Trabalhar com SQL Server?

Significa que saber apenas escrever um SELECT já não é suficiente.

O profissional de SQL Server que o mercado procura em 2026 precisa dominar T-SQL de forma profunda, incluindo consultas complexas, funções de janela, procedures, views e tratamento de erros. Precisa entender a arquitetura do mecanismo: como o SQL Server armazena dados, usa memória e gerencia transações e bloqueios. Precisa saber diagnosticar e resolver problemas de performance com índices, estatísticas, planos de execução e Query Store.

Precisa cuidar de segurança, criptografia, mascaramento de dados e segurança em nível de linha. Precisa garantir continuidade com estratégias de backup, restore, alta disponibilidade e recuperação de desastres. E precisa automatizar tarefas operacionais com SQL Server Agent, PowerShell e infraestrutura como código.

E, cada vez mais, precisa conhecer a nuvem. Azure SQL Database, Azure SQL Managed Instance e SQL Server em máquinas virtuais do Azure atendem a necessidades diferentes, com modelos de custo, disponibilidade e administração distintos. O Azure Arc permite gerenciar instâncias on-premises a partir do Azure, criando o cenário híbrido que a maioria das empresas brasileiras vive hoje. Saber avaliar e executar migrações entre esses ambientes é uma das competências mais valorizadas do momento.

Não por acaso, é exatamente esse o escopo da certificação DP-300 (Microsoft Certified: Azure Database Administrator Associate), que cobre planejamento e implementação de recursos da plataforma de dados, segurança, monitoramento e otimização, automação e alta disponibilidade em ambientes SQL Server e Azure SQL.

SQL Server, Microsoft Fabric e Inteligência Artificial

O SQL Server 2025, disponível desde 18 de novembro de 2025, representa a maior mudança de posicionamento do produto em muitos anos.

Pela primeira vez, o banco de dados traz um tipo de dado vetorial nativo, funções para cálculo de similaridade, índices vetoriais aproximados baseados em DiskANN (ainda em preview) e a capacidade de registrar modelos externos de IA (Azure OpenAI, Azure AI Foundry, Ollama e outros) para gerar embeddings diretamente via T-SQL. Isso permite construir busca semântica e aplicações RAG sobre os dados relacionais que a empresa já possui, sem mover os dados para outra plataforma.

O mesmo lançamento trouxe tipo de dado JSON nativo, funções de expressões regulares, chamada de endpoints REST a partir do banco, bloqueio otimizado para reduzir contenção em cargas com muitas escritas e compressão de backup com ZSTD. A edição Standard passou a suportar 32 núcleos e 256 GB de memória, a edição Express chegou a 50 GB por banco e as novas edições Developer (Standard e Enterprise) são gratuitas, o que reduz bastante a barreira para aprender e testar.

A integração com o Microsoft Fabric é o outro eixo. O espelhamento (Mirroring) replica continuamente bancos SQL Server 2025 e Azure SQL para o OneLake, sem ETL, e o Change Event Streaming (em preview) publica alterações em tempo quase real para o Azure Event Hubs ou para o Eventstream do Fabric. Já o SQL database in Fabric, em disponibilidade geral desde novembro de 2025, coloca o próprio mecanismo do SQL Server dentro do Fabric, com replicação automática para o lakehouse.

Na nuvem, o Azure SQL Managed Instance chegou à nova geração, com mais capacidade de armazenamento e novas opções de computação, e o SQL Server Management Studio ganhou integração com o Copilot para auxiliar na escrita e na explicação de consultas.

A consequência para a carreira é clara. O profissional de SQL Server está muito mais próximo do Analytics e da IA do que estava há dois anos. O DBA que entende Fabric consegue disponibilizar dados operacionais para análise em minutos. O analista que entende SQL Server consegue construir modelos semânticos mais eficientes. E quem entende vetores e embeddings dentro do banco consegue participar dos projetos de IA Generativa sem sair do ecossistema que já domina.

Você Deve Investir no Aprendizado do SQL Server?

Os sinais são consistentes. Um banco de dados que está entre os quatro mais populares do mundo há anos, usado por cerca de 30% dos desenvolvedores, presente em centenas de empresas brasileiras identificadas por bases tecnográficas, com quase mil vagas abertas no Brasil em Agosto de 2026, uma onda de migrações provocada pelo fim do suporte das versões 2016 e 2017 e uma nova versão que o coloca no centro da estratégia de dados e IA da Microsoft.

Ao contrário de tecnologias que surgem e desaparecem em poucos anos, o SQL Server é uma competência de longo prazo. E, ao contrário do que muitos pensam, não é uma competência estática: a mesma pessoa que administra um SQL Server 2019 on-premises hoje pode, com o aprendizado certo, operar Azure SQL, Fabric e recursos de IA no próximo projeto.

Para quem trabalha com Power BI, aprender SQL Server significa entender de onde vêm os dados e como prepará-los melhor. Para quem trabalha com desenvolvimento, significa construir aplicações mais rápidas e seguras. Para quem quer se especializar em dados, significa dominar a fundação sobre a qual todo o restante é construído.

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Equipe DSA

Referências: