Spec-Driven Development: A Nova Arquitetura de Engenharia de Software na Era dos Agentes de IA – Parte 4
Esta é a quarta parte de um total de 5 artigos sobre Spec-Driven Development. Se estiver chegando agora, comece pela Parte 1.
Parte 4 – A Arquitetura Agêntica: Orquestrando LLMs com Contexto Rígido e Validação
Para compreender a engenharia de software através do SDD, é necessário analisar como os Agentes de IA consomem e processam essas especificações.
Em uma arquitetura agêntica avançada, arquivos como SPEC.md e PLAN.md não são meramente lidos como documentos passivos; eles são injetados estrategicamente na janela de contexto do LLM a cada turno de conversação, moldando fundamentalmente o comportamento do modelo.
A arquitetura típica de injeção de contexto envolve três camadas principais:
– System Prompt (Fixo e Autoritativo): Define a persona e as diretrizes imutáveis do agente (ex: “Você é um Engenheiro Sênior rigoroso que segue estritamente as regras definidas em constitution.md. Você nunca deve supor requisitos não listados.”).
– Contexto Dinâmico (RAG/Cache): Fragmentos relevantes da especificação e do plano são recuperados e injetados. Com o advento de janelas de contexto massivas (e cada vez maiores a cada nova versão de um LLM), tornou-se prática comum injetar a especificação completa para garantir coerência global, utilizando técnicas de caching para reduzir latência e custo.
– Task Prompt (Variável): A instrução específica da tarefa atual do TASKS.md que precisa ser executada no momento.
Essa estrutura cria um “Túnel de Realidade” para o agente. Ele fica tecnicamente impedido de “ver” ou considerar soluções que violem as restrições impostas pelos documentos injetados nas camadas superiores do contexto, forçando a aderência ao design e reduzindo a possibilidade de alucinações.
Loops de Validação e Auto-Correção (O Agente Verificador)
O poder real e a confiabilidade do SDD estão na implementação de loops de validação autônomos. Diferente da geração de código “shotgun” (onde se aceita a primeira resposta do modelo), o SDD implementa ciclos de feedback onde o agente avalia seu próprio trabalho contra a especificação antes de submetê-lo à revisão humana.
O Padrão do Agente Verificador
Ferramentas como o Replit Agent e frameworks SDD customizados implementam frequentemente um padrão de arquitetura multi-agente:
Agente Construtor (Builder): Gera o código de implementação baseando-se na Tarefa #1 e no Plano.
- Agente Verificador (Verifier/Critic): Lê o código gerado pelo Builder e o compara rigorosamente com os Critérios de Aceitação e Requisitos Não Funcionais definidos no SPEC.md.
- Check: “O código implementa tratamento para erro de rede conforme o requisito ‘Unwanted Behavior’ especificado?”
- Check: “A nomenclatura das variáveis segue as regras da constitution.md?”
- Reflexão e Correção: Se o Verificador encontrar discrepâncias, ele devolve o código ao Construtor com feedback específico e estruturado.
Esse loop de refinamento pode ocorrer múltiplas vezes de forma autônoma.
Este processo é análogo a um compilador, mas operando no nível da lógica de negócios e da semântica. O SDD permite efetivamente “compilar” requisitos em código verificado.
Integração com Contratos de Interface: OpenAPI e AsyncAPI
Para sistemas distribuídos e arquiteturas de microsserviços, o SDD estende-se para a definição rigorosa de contratos de interface.
Especificações OpenAPI (anteriormente Swagger) para APIs síncronas e AsyncAPI para sistemas orientados a eventos funcionam como contratos rígidos que os agentes podem ler e escrever com altíssima fidelidade.
Design-First com IA: O agente gera o arquivo YAML do OpenAPI/AsyncAPI completo a partir da especificação funcional (SPEC.md) antes de escrever qualquer código de backend.
Geração de SDKs e Testes: Uma vez que o contrato (OpenAPI) está definido e aprovado, outros agentes especializados podem gerar SDKs de cliente, mocks de servidor e testes de contrato (Contract Tests) automaticamente, garantindo interoperabilidade.
Validação de Runtime via MCP: Agentes podem utilizar ferramentas conectadas via MCP para testar endpoints reais contra a especificação OpenAPI, fechando o ciclo entre a definição estática e o comportamento dinâmico observado.
Desafios Técnicos: O Equilíbrio Entre Alucinação e Rigidez
Um desafio central na arquitetura de sistemas SDD é encontrar o equilíbrio entre a criatividade necessária do LLM para resolver problemas e a rigidez da especificação.
Risco de “Over-specifying” (Especificação Excessiva): Se a especificação for detalhada demais, chegando ao nível de pseudocódigo, perde-se a vantagem da inteligência do modelo em encontrar soluções algorítmicas eficientes. O humano acaba “programando em inglês”, o que pode ser mais lento e propenso a erros do que programar diretamente em código.
Risco de “Under-specifying” (Especificação Insuficiente): Se a especificação for vaga, o agente preenche as lacunas com alucinações baseadas em dados de treinamento genéricos, desviando-se das necessidades específicas do negócio.
A solução arquitetural recomendada é a Especificação Hierárquica:
- Nível 1 (Intenção e Contrato): Rigoroso e detalhado. Regras de negócio, interfaces e restrições são inegociáveis.
- Nível 2 (Implementação Interna): Flexível. O agente tem liberdade para escolher algoritmos específicos ou bibliotecas internas auxiliares, desde que cumpra rigorosamente o contrato de interface e os requisitos de performance estabelecidos.
A Prática do Test-Driven Agentic Development (TDAD)
Uma prática emergente e poderosa no SDD é exigir que o agente gere os testes de aceitação antes da implementação, baseando-se puramente na spec.
- O Agente lê o SPEC.md.
- O Agente gera o arquivo de testes tests/feature_x.test.ts (que falham inicialmente, estado “Red”).
- O Agente implementa o código em src/feature_x.ts.
- O Agente executa os testes.
- Se os testes passarem (estado “Green”), a tarefa é marcada como concluída.
Isso garante que o código gerado não apenas “pareça certo” (vibe check), mas que funcionalmente atenda aos requisitos especificados, validando a implementação de forma objetiva.
Finalizamos esta série na Parte 5.
Equipe DSA