A programação assistida por IA mudou bastante em poucos anos. Primeiro vieram as sugestões de autocompletar no editor, depois os chats que explicam e geram trechos de código. Hoje, agentes de codificação leem repositórios inteiros, executam comandos, rodam testes e abrem pull requests.

Ferramentas como Claude Code, Codex e OpenCode consolidaram esse modelo de trabalho. Elas brilham dentro de uma sessão focada em um repositório e a continuidade entre sessões depende, em boa parte, de arquivos de contexto que o próprio desenvolvedor mantém, como CLAUDE.md e AGENTS.md, além de especificações no padrão SDD (Spec-Driven Development).

O Hermes Agent, da Nous Research, faz uma aposta diferente. Ele é um agente persistente que roda na sua infraestrutura, lembra o que aprendeu e transforma soluções bem-sucedidas em habilidades reutilizáveis (as skills).

Neste artigo, você vai entender o que ele é, quais recursos interessam a quem programa, como ele se compara ao Claude Code e quais cuidados de segurança tomar. Caso queira aprender como usar assistentes como Claude Code, Codex, OpenCode e Hermes via SDD em programação assistida por IA, isso é ensinado em detalhes na Formação AI Software Engineer 4.0.

O Que É o Hermes Agent?

O Hermes Agent é um Agente de IA autônomo e open source, lançado pela Nous Research em fevereiro de 2026 sob licença MIT. A Nous é o laboratório por trás da família de modelos Hermes, fundado em 2023 por Jeffrey Quesnelle, Karan Malhotra, Ryan “Teknium” e Shivani Mitra.

A proposta não é ser um copiloto preso ao editor. O Hermes roda no seu laptop, em uma VPS barata ou em um cluster, e você conversa com ele pelo terminal, por uma app desktop ou por mensageiros como Slack e Discord. O lema do projeto resume a ideia: um agente que cresce com você.

O modelo de negócio combina núcleo gratuito com o Nous Portal, uma assinatura que agrupa acesso a centenas de modelos e ferramentas como busca web e navegador em nuvem. Em julho de 2026, o TechCrunch noticiou que a empresa negociava uma rodada de pelo menos US$ 75 milhões com avaliação de US$ 1,5 bilhão, informação não confirmada pela Nous.

Por Que um Agente Que Aprende Importa Para Quem Programa?

A tese da Nous Research é que o ativo durável de um agente é o harness, a camada que decide o que o modelo pode fazer, e não o modelo em si. Modelos e provedores mudam a cada trimestre; memória, skills e fluxos de trabalho acumulados ficam com quem opera o agente.

Na prática, o Hermes fecha um ciclo de aprendizado com quatro peças:

• Memória persistente: arquivos curtos com fatos sobre você e seus projetos, sempre presentes no contexto.
• Busca em sessões anteriores: um índice de texto completo (FTS5) recupera o que foi feito semanas atrás.
• Skills criadas pelo próprio agente: após uma tarefa complexa, ele registra o procedimento que funcionou em um arquivo SKILL.md, compatível com o padrão aberto agentskills.io.
• Melhoria durante o uso: quando uma skill falha ou você corrige a abordagem, o agente atualiza o documento.

Na próxima tarefa parecida, o agente carrega a skill registrada e a ajusta se algo falhar, em vez de redescobrir o caminho. A memória guarda fatos pequenos e duráveis, que entram em todo turno. As skills guardam procedimentos longos e são carregadas sob demanda: o agente vê primeiro só nomes e descrições e abre o conteúdo completo apenas quando precisa, o que economiza tokens (documentação de skills).

Para quem desenvolve, as consequências são importantes. O procedimento de deploy do projeto, o jeito certo de rodar a suíte de testes e o atalho para depurar aquele serviço legado deixam de ser conhecimento repetido a cada sessão.

Com o comando /learn, você também pode pedir que o agente transforme em skill um diretório de documentação, uma URL ou o fluxo que acabou de executar. O contraponto é que o agente aprende com o que vê, inclusive lições erradas, tema que retomamos na seção de segurança mais a frente neste artigo.

A Caixa de Ferramentas do Hermes Para Código

O Hermes reúne as peças que se espera de um agente de codificação moderno e acrescenta algumas próprias. A seguir, os recursos que mais pesam no dia a dia de quem programa.

Terminal, arquivos e processos em segundo plano

O núcleo são as ferramentas terminal, process, read_file, write_file, patch e search_files (referência de ferramentas). Comandos longos, como uma suíte de testes, podem rodar em segundo plano enquanto o agente segue trabalhando. Depois, ele consulta o status, espera o fim, lê o log ou encerra o processo.

Um modo PTY permite operar ferramentas de linha de comando interativas. Desde a versão 0.20, falhas de ferramenta retornam pistas de recuperação, como apontar diferenças de espaço em branco em um patch que não casou com o arquivo.

Contexto de projeto: AGENTS.md, CLAUDE.md e .cursorrules

O Hermes detecta sozinho os arquivos de contexto do repositório (documentação). Apenas um tipo é carregado por sessão, e vence o primeiro encontrado nesta ordem: .hermes.md, AGENTS.override.md, AGENTS.md, CLAUDE.md e .cursorrules.

Em monorepos, ele carrega a cadeia de AGENTS.md da raiz do Git até o diretório de trabalho, e o arquivo mais profundo tem precedência. Arquivos de subdiretórios são descobertos aos poucos, quando o agente toca arquivos daquela pasta, o que mantém o prompt de sistema enxuto.

Todo arquivo de contexto passa por um scanner de prompt injection antes de entrar no prompt. Outra vantagem: se o seu repositório já tem um CLAUDE.md ou regras do Cursor, o Hermes as aproveita sem migração.

Diagnóstico semântico com LSP

O Hermes executa servidores de linguagem reais, como pyright, gopls, rust-analyzer, typescript-language-server e clangd, em segundo plano (documentação de LSP). A cada write_file ou patch, ele tira uma foto dos diagnósticos antes da edição, aplica a mudança e mostra apenas os erros que ela introduziu.

Isso inclui erros de tipo, nomes indefinidos e imports ausentes, não só erros de sintaxe. O recurso roda apenas dentro de repositórios Git. Servidores que executam código do projeto, como o rust-analyzer, só iniciam em workspaces confiáveis, e um repositório recém-clonado é tratado como não confiável por padrão.

Checkpoints, /rollback e worktrees

Antes de operações destrutivas em arquivos, o Hermes pode salvar um snapshot do projeto em um repositório Git “sombra” em ~/.hermes/checkpoints, isolado do Git do seu projeto (checkpoints). Você ativa o recurso por sessão com hermes chat –checkpoints ou no arquivo de configuração.

O comando /rollback lista os pontos salvos, /rollback diff 1 mostra o que mudou e /rollback 1 restaura o projeto, ou só um arquivo. A restauração também desfaz o último turno da conversa, para que o contexto do agente bata com o estado dos arquivos.

Já hermes -w inicia a sessão em um git worktree criado automaticamente, em um branch próprio. A documentação recomenda combinar os dois: um worktree por experimento e checkpoints como rede de segurança extra (worktrees).

Subagentes em paralelo

A ferramenta delegate_task cria agentes filhos com contexto limpo e terminal próprio. Apenas o resumo final volta para o agente principal, o que preserva a janela de contexto (delegação). Por padrão, até 10 subagentes rodam ao mesmo tempo, limite que é configurável.

Os filhos não conhecem a conversa do pai: tudo o que precisam deve ir nos campos de objetivo e contexto. Eles herdam, porém, os arquivos de contexto do projeto, como o AGENTS.md. Com delegation.worktree_isolation: true, cada filho trabalha em um worktree e branch próprios, e o pai revisa e faz o merge.

A documentação sugere uma estratégia de custo: um modelo de fronteira planeja, e um modelo mais barato, definido em delegation.model, executa as subtarefas. O comando /review dispara um subagente revisor independente, que abre o diff, roda o código e devolve os achados na conversa. Para pipelines mecânicos, execute_code roda um script Python que chama ferramentas via RPC, com custo de tokens bem menor.

Skills de Engenharia de Software

O Hermes já vem com skills voltadas a desenvolvimento (catálogo). Toda skill instalada vira um comando de barra.

skills

Dá para empilhar até cinco skills em uma mensagem, e combinações recorrentes podem virar um bundle com um único comando. Projetos também podem versionar skills próprias em .hermes/skills/, carregadas apenas depois que você confia no repositório com hermes skills trust.

Desde a versão 0.18, o Hermes registra evidências de verificação no trabalho de código e pode concluir uma tarefa rodando as checagens do projeto, em vez de apenas afirmar sucesso. O /goal ganhou contratos de conclusão: você define o que é “pronto”, e o ciclo avalia o resultado contra essa evidência.

Onde o Código Roda?

São sete backends de execução. No Docker, o Hermes mantém um contêiner persistente com sistema de arquivos raiz somente leitura, capabilities removidas e limite de 256 processos. O backend SSH é o recomendado pela documentação quando a prioridade é segurança, porque o agente não consegue alterar o próprio código. Modal e Daytona hibernam o ambiente quando ocioso.

Com hermes acp, o Hermes vira um servidor do Agent Client Protocol, usado por VS Code, Zed e JetBrains (integração ACP). O editor exibe o chat, a atividade das ferramentas, os diffs e os comandos de terminal, com a mesma configuração, memória e skills da CLI. O app desktop também ganhou, na versão 0.18, projetos de código com painel de revisão e gestão de worktrees.

Hermes Como Maestro: Orquestrando Claude Code, Codex e OpenCode

Um dos usos mais comuns do Hermes em programação é como orquestrador de outros agentes de código. Ele já vem com skills para delegar tarefas ao Claude Code, ao Codex CLI e ao OpenCode. A skill do Claude Code descreve dois modos de trabalho.

1. Modo print (-p): a tarefa roda de forma não interativa, devolve o resultado e encerra. É o modo preferido para corrigir um bug, criar uma feature ou refatorar um módulo. Com –output-format json, o Hermes recebe também o custo, o número de turnos e o ID da sessão, o que permite retomá-la depois.

2. Modo interativo via tmux: para ciclos de várias rodadas, o Hermes abre uma sessão tmux, envia os prompts com send-keys e acompanha o progresso com capture-pane.

No modo print, a chamada que o Hermes dispara no terminal se parece com isto:

claude -p “Adicione tratamento de erros em todas as chamadas de API em src/” \
–allowedTools “Read,Edit” \
–max-turns 10

A própria skill traz regras de bom uso: sempre definir o diretório de trabalho, limitar os turnos, restringir as ferramentas com –allowedTools e nunca aprovar pedidos de permissão sem lê-los. A flag –dangerously-skip-permissions fica reservada a um worktree descartável ou a um contêiner isolado.

Essa divisão de trabalho resume bem o encaixe entre as ferramentas. Em vez de competir com o Claude Code, o Hermes o envolve: o Claude Code escreve o código e o Hermes cuida do que está em volta. Isso inclui memória entre sessões, agendamento, tarefas paralelas e a possibilidade de disparar um trabalho pelo celular enquanto você está longe do computador.

Hermes Agent vs. Claude Code

Os dois são mais complementares do que concorrentes: o Claude Code é especialista em trabalho dentro do repositório e o Hermes é um agente generalista e persistente que trata código como um dos tipos de trabalho.

Na prática, o consenso da comunidade é dividir os papéis. Para sentar e programar junto com o agente, o Claude Code oferece a experiência mais fluida. Para tarefas pontuais disparadas de qualquer lugar, rotinas agendadas e fluxos que misturam código, pesquisa e ferramentas externas, o Hermes leva vantagem.

E nada impede usar os dois juntos: o Hermes pode rodar com modelos Claude e, como vimos, delegar a digitação do código ao próprio Claude Code.

Segurança: O Preço da Autonomia

Um agente que executa comandos, edita arquivos, acessa a rede e aprende sozinho tem uma superfície de ataque grande. A própria política de segurança da Nous recomenda isolar as instalações, não expô-las publicamente e revisar skills de terceiros.

Os principais riscos:

• Cadeia de suprimentos de skills: skills são instruções que o agente segue. Em fevereiro de 2026, a pesquisa ToxicSkills, da Snyk, analisou 3.984 skills de registros comunitários como ClawHub e skills.sh: 36% tinham vulnerabilidades de prompt injection e 76 traziam cargas maliciosas confirmadas.

• Falhas no próprio guardião: a CVE-2026-9353 apontou uma falha de injeção no Skills Guard, o scanner de skills do Hermes, em versões até 2026.4.23; a correção chegou na 0.15.0. Avaliações independentes, como a da Adversa AI, descrevem outros caminhos para contornar o scanner.

• Injeção pela memória: como o Hermes guarda memória persistente e lê conteúdo da web e de repositórios, uma instrução maliciosa pode entrar por contexto recuperado, e não pelo que você digita.

• Credenciais expostas: chaves de API em um .env em texto puro ficam ao alcance dos comandos que o agente executa.

O projeto vem respondendo com várias camadas. Desde a versão 0.19, as aprovações inteligentes são o padrão: um revisor baseado em LLM avalia cada comando sinalizado e regras de bloqueio definidas por você valem até no modo sem confirmações. A mesma versão passou a buscar segredos no Bitwarden e no 1Password.

Toda skill instalada pelo Skills Hub passa por um scanner e um veredito “perigoso” não pode ser ignorado nem com –force. Skills versionadas dentro de um repositório só carregam depois de hermes skills trust, e as suspeitas ficam em quarentena. Somam-se a isso o scanner de arquivos de contexto, os contêineres endurecidos e a confiança por workspace no LSP.

Conclusão

O Hermes Agent marca uma mudança de perspectiva na programação assistida por IA: sai o assistente de uma sessão, entra um harness que você possui, configura e que acumula conhecimento com o tempo. Para quem programa, os diferenciais são a memória entre sessões, as skills autogeradas, a delegação paralela com worktrees, o diagnóstico via LSP e a orquestração de agentes especializados.

Hoje, o uso mais maduro é a combinação. O Hermes cuida do contexto, do agendamento, da delegação e do aprendizado, enquanto um agente especializado, como o Claude Code, escreve as linhas de código.

A lição maior vai além da ferramenta. Escrever bons arquivos de contexto (SDD), projetar skills, definir critérios objetivos de “pronto” e governar a segurança de agentes autônomos são competências que valem para qualquer harness. Quem dominar essas habilidades estará preparado para a próxima geração de ferramentas, seja ela o Hermes ou a que vier depois.

Equipe DSA

Referências:

Desenvolvimento Full Stack com IA Generativa e Agentes de IA

Hermes Agent Tools & Toolsets